Vacina contra covid: Terceira dose deve acentuar desigualdade global

Vacina contra covid: Terceira dose deve acentuar desigualdade global

A aplicação de terceiras doses em países de renda alta ou média vai limitar de forma drástica o acesso das nações pobres às vacinas contra a covid-19 e fazer disparar a desigualdade da imunização pelo mundo no último trimestre deste ano. A avaliação é do ex-presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e coordenador do Centro de Relações Internacionais em Saúde (Cris), Paulo Buss.

Enquanto países de maior nível de renda se preparam para a aplicação da dose de reforço ou já começaram a aplicá-la, os países de renda baixa só vacinaram 2,1% de suas populações com pelo menos uma dose, segundo dados de agosto da Organização Mundial da Saúde (OMS). As chamadas nações de renda alta imunizaram, em média, 57,3% de suas populações. A disparidade no estoque de doses tende a ser ainda maior.

Buss define a renovação da demanda por vacinas nos grandes centros como um duro golpe aos esforços multilaterais de equidade na distribuição das vacinas, como o consórcio para doação e venda de vacinas Covax Facility, da Organização Mundial da Saúde (OMS). O pesquisador alerta que a consequência direta do agravamento desse cenário é a criação de bolsões permanentes de transmissão do vírus, sobretudo na África, o que prolonga a pandemia e, no limite, pode agravá-la por favorecer o surgimento de variantes mais infecciosas ou resistentes às vacinas.

A dose de reforço tem amparo científico: diversos estudos já atestam queda na imunidade de idosos passados seis meses da vacinação. A própria Fiocruz ratifica a estratégia, adotada pelo governo brasileiro, de aplicar um reforço nos mais velhos. Mas Buss define a opção como um “erro técnico” do ponto de vista global, para além da discussão ética que costuma prevalecer no debate. “A discussão é delicada, mas a forma como caminhou evidencia o fracasso da cooperação no enfrentamento à doença, o grau de fragilidade dos instrumentos multilaterais”, diz.

A OMS prega uma moratória à terceira dose até que todos os países tenham pelo menos 40% de suas populações vacinadas, mas a lista de governos signatários da organização que ignoram a recomendação cresce a cada dia. Países como Israel, Rússia, Chile e Uruguai já aplicam o reforço e pelo menos outros 25, como o Brasil, anunciaram o início da revacinação neste mês. A maioria planeja revacinar somente idosos, mas os EUA vão contemplar todas as faixas etárias, o que aumenta ainda mais a pressão sobre a disponibilidade global de vacinas.

Fonte: https://www.clickpb.com.br/saude/vacina-contra-covid-terceira-dose-deve-acentuar-desigualdade-global-313944.html