Fonte: Medicina S/A
Foto: Reprodução/Medicina S/A
Dizer que a internet ampliou o acesso ao conhecimento médico não é mais novidade. Assistir a um congresso transmitido ao vivo, rever uma aula gravada ou fazer um curso a distância é possível há mais de uma década. O que começa a mudar agora não é a existência desse acesso, mas a velocidade com que o conteúdo pode ser organizado e, principalmente, o que pode acontecer com ele depois que o evento termina.
Um congresso de dois dias, por exemplo, pode deixar de ser uma experiência concentrada naquele período. Com inteligência artificial aplicada à produção de conteúdo, palestras e apresentações podem ser transcritas, segmentadas por tema, traduzidas e organizadas em diferentes formatos, dando origem a cursos, módulos ou outros materiais que continuam disponíveis, com apoio de curadoria e organização pedagógica, muito depois de o evento terminar.
O desafio se torna evidente quando se observa a distribuição dos médicos pelo território brasileiro. Segundo a Demografia Médica no Brasil 2025, 58% dos médicos atuam em apenas 48 municípios com mais de 500 mil habitantes. No outro extremo, 4.895 municípios, onde vive 31% da população, concentram apenas 8% dos médicos.
A concentração territorial também aparece na distribuição dos especialistas. Enquanto o Distrito Federal tem 72,2% de seus médicos com título de especialista e o Rio Grande do Sul, 67,9%, os percentuais são de 46,5% em Rondônia e 45,1% no Piauí. O Sudeste, por sua vez, concentra 55,4% dos médicos especialistas do país.
É aí que a inteligência artificial entra como uma nova camada. Uma palestra que antes ficava restrita ao momento em que foi apresentada pode ser reorganizada, revisitada e até dar origem a novas versões para públicos que não estavam no evento original. O congresso deixa de ser só o ponto final de uma experiência de aprendizagem e passa a ser também o ponto de partida de um material que pode virar curso, módulo ou outro produto educacional.
Isso não substitui a interação presencial, nem garante, por si só, que o resultado esteja correto ou adequado para orientar uma decisão clínica. A inteligência artificial entra aqui como ferramenta de produção e organização de conteúdo, não como substituta do julgamento profissional, e por isso sua aplicação em conteúdo médico exige curadoria, validação de fontes e critérios claros de qualidade. O que se desenha não é uma escolha entre presencial e digital: a residência segue fundamental para a formação prática, os encontros presenciais continuam valendo pela troca direta entre pares, e a inteligência artificial amplia o alcance e a vida útil do que é produzido neles.
Em uma profissão em que o conhecimento está em constante evolução, a questão deixa de ser apenas onde o médico vai estudar, e passa a incluir o que acontece com o conhecimento depois que ele é produzido. O próximo passo talvez não esteja em criar mais um canal para transmitir conhecimento, mas em aumentar a vida útil daquilo que já foi produzido, fazendo com que ele continue circulando depois que as luzes do auditório se apagam, e aproximando profissionais de diferentes regiões das discussões que acompanham a evolução da medicina.
*Luiz Gustavo Borges é CEO e fundador da Congresse.me.
Fonte: https://medicinasa.com.br/transmissao-a-aprendizagem/
