A saúde do futuro vai precisar de tecnologia e, sobretudo, de gente

 A saúde do futuro vai precisar de tecnologia e, sobretudo, de gente

Fonte: Medicina S/A
Foto: Reprodução/Medicina S/A

Por Renata Biselli e Carlos Henrique de Lima

O Brasil está envelhecendo rapidamente. Ao mesmo tempo, a inteligência artificial avança sobre hospitais, consultórios, laboratórios e serviços de saúde. À primeira vista, podem parecer movimentos independentes. Mas não são.

Juntos, envelhecimento e tecnologia estão transformando o tipo de cuidado que a população precisará, as competências exigidas dos profissionais e, consequentemente, o próprio mercado de trabalho na saúde. Mas há uma terceira dimensão que deveria ocupar espaço central nesse debate: quem terá acesso às novas oportunidades que estão sendo criadas?

A resposta pode determinar se essa transformação aprofundará desigualdades históricas ou se ajudará a criar novas trajetórias de formação, trabalho e mobilidade social para milhares de jovens brasileiros.

A mudança demográfica já está em curso. Em 2023, pela primeira vez, a proporção de pessoas idosas no Brasil, de 15,6%, ultrapassou a de jovens entre 15 e 24 anos, de 14,8%, segundo dados do IBGE divulgados em 2024.

Envelhecer é uma conquista nossa enquanto sociedade. Porém, viver mais, mudará substancialmente nossas necessidades de saúde. Uma população mais longeva tende a desenvolver doenças crônicas, mais de uma, muitas vezes, e a conviver com elas por períodos maiores. As condições de saúde ampliarão a necessidade de acompanhamento contínuo, exigindo um olhar atento para prevenção, atenção primária, reabilitação, cuidados domiciliares, geriatria, gerontologia, oncologia e cuidados paliativos.

O desafio é que a formação dos profissionais nem sempre acompanha essas transformações na mesma velocidade. Dados citados pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), em 2024, mostram, por exemplo, que, em 2020, apenas 0,7% dos médicos brasileiros possuíam especialização em geriatria.

Preparar a saúde brasileira para a longevidade significa também preparar pessoas para trabalhar nela. E, se a demografia transforma a demanda, a tecnologia transforma a maneira de atendê-la.

Inteligência artificial, prontuários eletrônicos, telessaúde, sistemas de apoio à decisão clínica, dispositivos de monitoramento remoto e outras ferramentas digitais já fazem parte da rotina de diferentes serviços.

Saber utilizar tecnologia será tão importante quanto questioná-la. O profissional precisará compreender dados, reconhecer os limites dos algoritmos, preservar a privacidade das informações e, sobretudo, saber integrar as recomendações tecnológicas ao seu próprio julgamento. A tecnologia deve apoiar, ampliar e qualificar a tomada de decisão, sem substituir a análise, a experiência e a responsabilidade humana. Há, inclusive, um paradoxo interessante nessa transformação: quanto mais tecnologia entra no cuidado, mais valiosas se tornam determinadas competências essencialmente humanas.

Escutar, comunicar uma notícia difícil, trabalhar em equipe, compreender a realidade social de um paciente, perceber aquilo que um protocolo não percebe e construir confiança continuarão sendo capacidades fundamentais. A inteligência artificial pode apoiar um diagnóstico, mas não substitui a relação entre um profissional, uma pessoa idosa e sua família.

Por isso, preparar profissionais para a saúde do futuro vai além de simplesmente acrescentar inteligência artificial aos currículos. Será necessário combinar letramento digital, capacidade crítica, conhecimento técnico e competências humanas.

Também precisaremos rever uma ideia profundamente enraizada sobre educação profissional: a de que a formação termina com o diploma.

Experiências da Fiocruz, da Universidade Aberta do SUS, do Ensino Einstein e do Instituto de Ensino e Pesquisa Sírio-Libanês apontam diferentes respostas a esse desafio, da educação digital em grande escala à simulação realística e à aprendizagem baseada em problemas. Apesar das diferenças entre os modelos, há uma mensagem comum: formação e trabalho precisarão estar muito mais próximos.

É justamente nesse ponto que a transformação da saúde encontra outro grande desafio brasileiro: a inclusão produtiva da juventude. Nosso mercado de trabalho continua profundamente desigual. Dados do Ministério do Trabalho e Emprego divulgados em 2024 mostravam, por exemplo, que mulheres negras recebiam, em média, apenas 50,2% da remuneração dos homens brancos. Essas desigualdades também aparecem no acesso à formação, à tecnologia e às posições de maior qualificação profissional.

Se não houver uma ação deliberada, a modernização da saúde poderá simplesmente reproduzir essas diferenças. Mas existe outro caminho.

A crescente demanda por profissionais pode abrir oportunidades para que jovens em situação de vulnerabilidade tenham acesso a formação de qualidade, ingressem no mercado formal e construam trajetórias de desenvolvimento profissional.

Uma experiência do Instituto Reciclar ajuda a enxergar esse potencial. A Pesquisa Pós-Programa de 2026 identificou 92 jovens formados pela organização que haviam cursado formação técnica ou superior em áreas relacionadas à saúde. É uma amostra pequena, que não permite generalizações, mas traz sinais relevantes.

Entre esses jovens, 73,8% eram pessoas não brancas e 92,9% eram mulheres. Quase metade dos que haviam realizado curso técnico na área da saúde já havia ingressado no ensino superior. Entre os jovens com formação técnica em Enfermagem, 90% deram continuidade aos estudos em uma graduação na mesma área. Sete em cada dez estavam empregados e, entre eles, 85,71% trabalhavam na própria área de formação.

Esses resultados levantam uma hipótese que merece atenção: a saúde pode ser uma porta consistente não apenas de entrada no mercado de trabalho, mas também de progressão profissional para jovens que historicamente tiveram menos acesso a oportunidades.

Quando discutimos formação em saúde, frequentemente começamos e terminamos na Medicina. A qualidade da formação médica é evidentemente fundamental, mas nenhum sistema de saúde funciona apenas com médicos. Uma população que envelhece dependerá cada vez mais de equipes multiprofissionais e de milhares de trabalhadores de nível técnico.

Instituições de ensino, SUS, hospitais, empresas, organizações sociais e sociedade civil precisam conversar mais sobre quais competências estão faltando e sobre como construir trajetórias de formação que efetivamente levem ao trabalho.

Isso exige preparar profissionais para uma população mais longeva; incorporar tecnologia e inteligência artificial com ética, pensamento crítico e julgamento profissional; transformar a educação continuada em parte natural da carreira; e, principalmente, fazer da expansão desse mercado uma estratégia de inclusão produtiva.

Não se trata de escolher entre tecnologia e pessoas.

No fim, o futuro da saúde continuará dependendo de gente bem preparada cuidando de gente. E talvez a maior oportunidade esteja justamente aí: garantir que o Brasil forme essas pessoas e que as novas oportunidades de fazer parte desse futuro cheguem também a quem, historicamente, ficou de fora.


*Renata Biselli é Superintendente Executiva do Instituto Devive e Carlos Henrique de Lima é Diretor Executivo do Instituto Reciclar.

Fonte: https://medicinasa.com.br/saude-futuro/