Fonte: Medicina S/A
Foto: Reprodução/Medicina S/A
Por Sabrina Chagas
A menopausa não é uma doença. É uma etapa fisiológica da vida da mulher. Mas isso não significa que seja uma fase simples ou que não exija cuidados. Pelo contrário, exige uma abordagem individualizada, já que cada mulher é única e vivencia essa fase de uma maneira diferente.
Essa foi uma das reflexões que levei comigo do 20º Congresso Mundial de Menopausa, realizado no Rio de Janeiro, que reuniu especialistas de dezenas de países para discutir os diferentes aspectos da saúde da mulher nessa fase da vida. Falou-se sobre saúde cardiovascular e óssea, libido, sono, cognição, metabolismo e tantos outros temas que fazem parte da vida de milhões de mulheres. Para mim, no entanto, havia uma questão especialmente importante: como ampliar esse olhar para as mulheres que tiveram câncer de mama.
Fui ao congresso também para aprimorar o cuidado que ofereço às minhas pacientes. Em muitas delas, o próprio tratamento oncológico antecipa a menopausa ou intensifica sintomas relacionados às mudanças hormonais. Para mulheres jovens, essa transição pode acontecer de forma abrupta, em uma idade em que elas não esperavam vivenciá-la.
O câncer de mama esteve presente em diferentes momentos da programação, com discussões sobre rastreamento, prevenção, efeitos dos tratamentos hormonais, avanços da inteligência artificial, papel da biópsia líquida e estratégias para preservar a saúde e a qualidade de vida depois do diagnóstico.
Estamos falando de uma doença cada vez mais relevante. No Brasil, são estimados 78.610 novos casos por ano no triênio 2026-2028. Por trás de cada número, existem mulheres que não enfrentam apenas o impacto do diagnóstico e do tratamento. Muitas também precisam lidar com mudanças hormonais importantes, sintomas físicos e emocionais e uma nova relação com o próprio corpo.
Ao longo do congresso, ficou ainda mais evidente que cuidar dessa mulher exige uma abordagem ampla. A atividade física apareceu repetidamente como um dos pilares desse cuidado. Não como uma recomendação genérica, mas como parte de uma estratégia que pode contribuir para a saúde cardiovascular, a composição corporal, a massa muscular, o sono, os sintomas depressivos e a qualidade de vida.
A obesidade também ganhou espaço nas discussões. A transição menopausal pode ser acompanhada por mudanças na composição corporal e no metabolismo, e o excesso de peso está relacionado a diferentes riscos para a saúde. Por isso, medicamentos para o tratamento da obesidade, incluindo os agonistas do receptor de GLP-1, também estiveram entre os temas debatidos.
Há ainda estratégias não medicamentosas que podem ajudar. A terapia cognitivo-comportamental, por exemplo, apresenta evidências para o manejo de sintomas vasomotores, os conhecidos calorões, além de outras abordagens que devem ser consideradas de acordo com o perfil e as necessidades de cada mulher.
Para quem teve câncer de mama, essa discussão é ainda mais delicada. A terapia hormonal da menopausa, que pode ser uma alternativa para algumas mulheres sem histórico de câncer de mama, não é uma solução rotineiramente adotada para quem teve a doença. Nesses casos, o cuidado precisa ser individualizado, com avaliação dos riscos e benefícios e, muitas vezes, com o uso de estratégias não hormonais.
Uma das aulas que mais me marcou, e que foi aplaudida de pé por parte dos congressistas, tratou de uma questão que vai além dos consultórios e dos artigos científicos: o chamado “mercado da menopausa”.
Quando uma mulher está cansada, dormindo mal, sofrendo com mudanças no corpo ou na sexualidade, ela procura uma solução para recuperar o bem-estar. E é justamente nesse momento de vulnerabilidade que pode ficar mais exposta a promessas fáceis.
Um produto, um tratamento ou um suplemento apresentado como capaz de devolver rapidamente aquilo que ela sente ter perdido pode parecer uma resposta. Mas nem toda promessa encontra respaldo na ciência.
Quanto maior a ansiedade em torno dos sintomas, maior pode ser a vulnerabilidade à desinformação. E informações científicas, quando apresentadas em uma linguagem excessivamente técnica, nem sempre conseguem competir com discursos simples, sedutores e, muitas vezes, comerciais.
Falar de menopausa é falar também de letramento em saúde. Precisamos tornar as evidências compreensíveis. Precisamos ajudar as mulheres a reconhecer o que é uma informação confiável, o que é uma opinião e o que é uma promessa comercial apresentada como ciência.
Também senti falta de outros oncologistas no congresso. Talvez tenha sido uma das poucas, ou até a única oncologista brasileira presente durante todo o evento. Essa ausência me fez pensar no quanto ainda precisamos aproximar a oncologia das discussões sobre menopausa.
Mas sai do congresso também com a sensação de que essa mudança já começou. A oncologia vem ampliando seu olhar para o paciente para além da doença e do tratamento. E isso significa reconhecer que vencer ou controlar um câncer não encerra a necessidade de cuidado.
Nossas pacientes continuam vivendo, trabalhando, amando, envelhecendo e se relacionando com seus corpos. Algumas passam pela menopausa antes do tempo. Outras enfrentam sintomas que afetam o sono, a sexualidade, a autoestima e a qualidade de vida.
Cuidar do câncer é também cuidar da mulher que existe depois do diagnóstico. Por que o tratamento pode terminar. O cuidado, não.
*Sabrina Chagas é oncologista da Oncologia D’or e presidente do Instituto Nosso Papo Rosa.
