Fonte: Medicina S/A
Foto: Reprodução/Medicina S/A
De acordo com dados do último boletim epidemiológico da Organização Mundial da Saúde (OMS), 22.773 novos doentes de hanseníase foram diagnosticados no Brasil em 2023, um aumento de 4% em comparação com 2022. Lembrando que, apesar de ser um dos países que mais diagnosticam a doença, a Sociedade Brasileira de Hansenologia (SBH) vem denunciando a autoridades brasileiras e estrangeiras que o país sofre de uma endemia oculta de hanseníase – milhares de casos sem diagnóstico e tratamento, o que é comprovado pelo alto percentual de diagnósticos tardios, registrados em pacientes com sequelas incapacitantes e irreversíveis. Apesar do aumento, o Brasil ainda não consegue diagnosticar casos novos no ritmo pré-pandemia de Covid-19, que chegou a cerca de 30 mil casos/ano.
A situação nos países do BRICS+ não é diferente. Por isso, a SBH debateu o tema “Hanseníase nos países que compõem os BRICS+” no 18º Congresso Brasileiro de Hansenologia, maior evento das Américas sobre o tema. Segundo a OMS, a Índia, primeiro lugar no ranking mundial de casos, registrou 107.851 novos casos, um aumento de 15% em comparação com o ano anterior, e a China, 315 novos diagnósticos, com um aumento de 4%.
Doença neural
A hanseníase é uma doença neural, o bacilo transmissor afeta os nervos, causando inflamação. A ação do bacilo é lenta – pode levar de 5 a 10 anos até que a doença se instale. O paciente pode sentir formigamentos, dores pelo corpo e, com nervos inflamados, pode ter alterações na sensibilidade da pele. Com o tempo, perde força para segurar objetos. Podem surgir na pele manchas esbranquiçadas ou avermelhadas com perda de pelos e de sensibilidade. Os sintomas podem se confundir com inúmeras enfermidades, mas o exame é clínico e um dos testes ainda muito usado e efetivo é a ausência de suor nas manchas.
“O especialista avalia o conjunto de sinais e sintomas e pode pedir exames complementares, como o ultrassom de nervos periféricos. Muitos doentes são diagnosticados com artrite, artrose, trombose, diabetes, alergia, micose e até infarto por causa das dores nos nervos. É comum a pessoa passar anos por vários serviços de saúde com vários diagnósticos, enquanto a doença avança sem tratamento”, explica Marco Andrey Cipriani Frade, dermatologista e hansenólogo, presidente da SBH, professor titular da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP.
Na Bahia, mais de 70% dos casos novos têm a forma mais grave da doença
O Boletim Epidemiológico da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, de janeiro/2024, coloca o estado em 11º lugar no ranking nacional de detecção de casos novos – foram 1.691 diagnósticos em 2022, data do último levantamento, sendo 74,5% (1.260) com a forma mais grave da doença.
A SBH alerta para a urgência de ações para diagnóstico precoce. A taxa de cura no estado foi de 71,2%, considerada precária – hanseníase tem tratamento gratuito e pode ser curada com um coquetel de antibióticos, a poliquimioterapia fornecida pelo SUS.
A doença exige avaliação de contatos que podem ter sido contaminados pelos pacientes diagnosticados. Na Bahia, apenas 63% dos contatos próximos dos pacientes foram avaliados, taxa também considerada precária. O rastreio e tratamento dos comunicantes é a estratégia para controlar a transmissão e evitar sequelas. A situação na Bahia é apenas um exemplo do cenário da hanseníase em todo o Brasil.
